Saúde
Entenda como remédio para emagrecer pode ajudar a tratar distúrbio de sono
Em novo estudo, a tirzepatida se mostrou eficaz em reduzir em até 62,8% os eventos respiratórios de apneia obstrutiva do sono em pessoas com obesidade

Novo estudo mostrou que a tirzepatida, molécula presente em medicamentos para emagrecer, como Zepbound, pode atuar no tratamento da apneia obstrutiva do sono em pessoas com obesidade
Carolina Rudah/GettyImages
Um novo estudo mostrou que o uso de tirzepatida, componente presente em remédios para emagrecer, pode reduzir os sintomas e a gravidade da apneia obstrutiva do sono em pacientes com obesidade. Os resultados do estudo foram publicados no New England Journal of Medicine no dia 21 de junho e apresentados nesta sexta-feira (28) no International Congress on Obesity (ICO) 2024, que acontece em São Paulo.
A tirzepatida é o princípio ativo presente em medicamentos para emagrecer, como o Zepbound, e para o tratamento do diabetes tipo 2, como o Mounjaro, ambos da farmacêutica Eli Lilly. A molécula atua como agonista duplo de GLP-1 e GIP, hormônios gerados no intestino e liberados depois das refeições. Isso significa que o medicamento tem a capacidade de aumentar a produção de insulina pelo pâncreas para manter o controle do açúcar no sangue e induzir a sensação de saciedade.
Já a apneia do sono é um distúrbio caracterizado por pausas temporárias na respiração durante o sono. Essas pausas, conhecidas como apneias, ocorrem quando as vias aéreas superiores ficam bloqueadas ou colapsam, impedindo o fluxo de ar para os pulmões. Um dos principais fatores de risco para a doença é a obesidade.
Diante disso, o conjunto de estudos SURMOUNT-OSA avaliou o uso de tirzepatida em adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono, de moderada a grave. Para isso, foram realizadas duas análises: uma com pacientes que não faziam terapia com pressão positiva nas vias áreas (CPAP), tratamento convencional para apneia do sono, e outra com pacientes que já usavam e planejavam continuar com a CPAP durante o estudo.
No total, os dois estudos contaram com 469 participantes de diversos países, incluindo o Brasil. De forma aleatória, uma parte dos pacientes recebeu a dose máxima tolerada de tirzepatida (10 mg ou 15 mg), enquanto a outra parte recebeu placebo. O estudo durou 52 semanas.
Redução de até 62,8% nos eventos de apneia
Segundo a pesquisa, os pacientes que utilizaram tirzepatida no tratamento da apneia obstrutiva do sono obtiveram uma redução de até 62,8% no Índice de Apneia-Hipopneia (que representa o número de eventos respiratórios por hora e determina a gravidade da doença), em comparação com os que utilizaram placebo. Isso é equivalente a cerca de 30 eventos a menos que restringem ou bloqueiam o fluxo aéreo de uma pessoa por hora de sono.
Além disso, entre os participantes que não faziam terapia com CPAP, 43% que usaram tirzepatida na dose mais alta preencheram os critérios de “remissão” da doença. Já entre aqueles que faziam terapia com CPAP, a taxa foi ainda maior: 51,5%. Isso significa que eles apresentaram menos de cinco eventos de apneia por hora de sono. Além disso, esses participantes também obtiveram um escore abaixo de 10 na Escala de Sonolência Epworth (ESE), questionário padrão desenvolvido para avaliar a sonolência diurna.
“Em média, os pacientes tinham 50 eventos de paradas respiratórias em uma hora de sono antes da intervenção. Os resultados do estudo mostraram que aqueles participantes tratados com tirzepatida apresentaram 30 eventos a menos de paradas respiratórias por hora de sono”, explica Luiz Magno, diretor médico da Eli Lilly do Brasil, à CNN.
Além disso, os pacientes tratados com tirzepatida em ambos os estudos experimentaram melhorias significativas em condições de saúde relacionadas à apneia obstrutiva do sono, como melhora na pressão arterial, na carga hipóxica (baixa oxigenação durante o sono) e nos níveis de proteína C reativa (PCR), um marcador de inflamação, em comparação com placebo.
“A AOS pode atrapalhar a qualidade de vida dos pacientes e afeta a saúde a longo prazo de uma pessoa quando não tratada, porque pode levar a complicações cardiometabólicas graves. Esses dados apoiam a eficácia da tirzepatida em adultos com obesidade que vivem com AOS moderada a grave e aumentam o nosso arsenal terapêutico para o tratamento da doença”, afirmam Atul Malhotra, professor de medicina da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, e Peter C. Farell, diretor de medicina do sono da UC San Diego Health, em comunicado.
Como a tirzepatida atua na apneia do sono?
Para entender como a tirzepatida atua no tratamento da apneia do sono, é preciso, primeiro, compreender a relação da doença com a obesidade. Segundo Luciano Drager, cardiologista e presidente da Associação Brasileira do Sono, um dos principais fatores de risco para apneia do sono é o excesso de peso corporal.
“Na obesidade, geralmente, há o depósito de gordura não somente na região do abdômen, mas também na região do pescoço, na língua e na garganta. Esse tecido gorduroso, quando há o relaxamento muscular provocado pelo sono, envolve a via aérea, ajudando no fechamento da passagem de ar durante o sono”, explica à CNN.
Atualmente, o tratamento principal para a apneia do sono é o uso de CPAP, porém, mudanças no estilo de vida que promovam a perda de peso — como alimentação saudável e prática de atividades físicas — também são fundamentais para o sucesso do tratamento.
“No entanto, a adesão [a essas mudanças de estilo de vida] é difícil. As pessoas têm dificuldade de perder peso por uma série de fatores”, afirma Drager. “Hoje em dia, temos diversos tratamentos mais afetivos para combater a obesidade e que, por sua vez, pode melhorar inúmeras doenças relacionadas à condição, entre elas a apneia do sono”, completa.
Na visão de Drager, o uso da tirzepatida em pacientes com obesidade e apneia, pode ser eficaz por promover a perda de peso e, consequentemente, tratar o distúrbio de sono. “Esse é um medicamento que atua tanto na liberação de insulina, quanto no sistema nervoso central, inibindo e controlando a fome”, explica.
No entanto, durante apresentação do estudo no ICO 2024, Richard Schwab, um dos autores do estudo e professor de Medicina do Hospital da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, afirma que ainda não se sabe se a ação da tirzepatida na redução dos sintomas de apneia obstrutiva do sono tem relação direta com a ação da molécula na doença, ou se é uma consequência da perda de peso ocasionada pelo medicamento.
“É muito precoce dizer que o tratamento farmacológico com tirzepatida vai substituir o tratamento tradicional, primeiro porque nem todos os pacientes com apneia têm obesidade. Mas a tirzepatida pode ser uma importante opção para somar ao tratamento da apneia, principalmente entre os pacientes que não têm boa adesão às mudanças no estilo de vida visando a perda de peso”, completa Drager.
Tirzepatida está aprovada no Brasil para o tratamento de diabetes tipo 2
Atualmente, a tirzepatida está aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de diabetes tipo 2 com o nome comercial Mounjaro, da Eli Lilly. Segundo Magno, a farmacêutica já solicitou à agência a aprovação da molécula para o tratamento da obesidade. “Também planejamos submeter no Brasil a indicação da tirzepatida para tratar apneia do sono, o quanto antes”, afirma.
Questionado sobre quando Mounjaro estará disponível para ser comercializado no Brasil, o diretor médico da Eli Lilly do Brasil respondeu que ainda não há previsão. “Há uma grande demanda global pelo medicamento e queremos garantir que teremos suprimentos suficientes para atender esses pacientes antes de lançarmos o medicamento no Brasil, para não haver falta de produto”, afirma.
Notícias
Anvisa bloqueia venda ilegal de insulina e tirzepatida
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a comercialização e o uso de todos os lotes de insulina produzidos pela empresa Costa Mar Comércio Licitatório. A medida foi oficializada nesta terça-feira (6) no Diário Oficial da União.
Segundo comunicado da Anvisa, a empresa distribuiu insulina glargina 3 mL/100 UI sem possuir a devida Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE), em descumprimento às normas sanitárias vigentes.
Uma inspeção da vigilância sanitária de Petrópolis (RJ) realizada no início de setembro revelou que a empresa não opera no endereço registrado e que não possui licença sanitária naquele local.
A Agência Brasil tentou contato com a Costa Mar Comércio Licitatório Ltda., sem sucesso até a data de publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento.
Peptídeos
A resolução também interditou a venda de diversos peptídeos sem registro, comercializados por meio do site indicado pela Anvisa.
Peptídeos são moléculas produzidas pelo corpo humano que desempenham diversas funções, podendo atuar como hormônios ou na regulação de processos biológicos, como cicatrização e resposta imunológica.
Recentemente, um hormônio peptídeo específico ganhou destaque: o glucagon-1 (GLP-1), produzido naturalmente pelo organismo e responsável pelo controle da saciedade e dos níveis de açúcar no sangue.
Duas substâncias que imitam o efeito do GLP-1 surgiram como tratamentos para diabetes e obesidade: a tirzepatida e a semaglutida, popularmente chamadas de canetas para emagrecimento.
Conforme a Anvisa, os produtos vendidos no site mencionado, sem registro, estão proibidos de serem comercializados, fabricados, distribuídos, promovidos, transportados ou utilizados. A restrição vale para pessoas físicas, jurídicas e meios de comunicação.
A proibição alcança também peptídeos sem notificação ou cadastro na Anvisa, fabricados por empresas desconhecidas e disponíveis no mercado online.
Lista de produtos proibidos para apreensão:
- BPC157 & TB500 40 mg – Alluvi Healthcare
- NAD+ 1000 mg – Synedica Labs
- Tirzegen 60 mg Tirzepatida – Oxygen Pharm
- Retagen 40 mg Retatrutide – Oxygen Pharm
- Glow GHK-CU 70 mg – Alluvi Healthcare
- Retatrutide 40 mg – Alluvi Healthcare
Recolhimento de medicamentos
A Anvisa também determinou a suspensão da venda, distribuição e uso do lote JNYJ1201 do antibiótico Imaavy – 300 mg, após comunicação da empresa Janssen – Cilag Farmacêutica sobre um recolhimento voluntário do produto.
Segundo a fabricante, existe a possibilidade de presença de partículas de vidro nos frascos deste lote.
Além disso, a agência ordenou o recolhimento do lote 0000207107 do medicamento Lizbi – 2 mg/ml, produzido pela Halex Istar Indústria Farmacêutica S.A..
Foi constatada uma falha na qualidade relacionada à perda de esterilidade da solução, decorrente da integridade comprometida da embalagem primária.
A Agência Brasil entrou em contato com a Halex Istar Indústria Farmacêutica S.A. e aguarda uma resposta.
Notícias
Nobel de Medicina 2026 promete avanços no estudo do cérebro
Karl Deisseroth, pesquisador dos Estados Unidos que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina, é um psiquiatra, neurocientista e engenheiro de bioprocessos com mais de vinte anos dedicados a desvendar os segredos do cérebro.
Este professor da Universidade de Stanford falou à AFP sobre o Nobel concedido na segunda-feira (5) por sua pesquisa em optogenética — uma técnica que combina luz e genética — compartilhado com os cientistas alemães Peter Hegemann e Georg Nagel.
O grupo foi premiado “pela descoberta de um interruptor molecular para as células nervosas”, declarou o Comitê do Nobel.
Qual é o diferencial do método?
“Este é um objetivo buscado há muito tempo pela neurociência, pois o cérebro é extremamente complexo, com bilhões de células lado a lado desempenhando funções muito distintas”, explicou Deisseroth à AFP.
“Precisávamos de uma maneira de identificar essas células, controlar uma sem afetar as outras. A solução encontrada foi usar algo que normalmente elas não respondem: a luz, e tornar apenas algumas células sensíveis à luz”.
“Assim, temos uma forma eficaz de ser específico.”
Como essa descoberta impacta a psiquiatria?
Com a luz, os cientistas podem ativar ou desativar circuitos neurais específicos no cérebro. Também identificaram circuitos que controlam memórias, emoções e comportamentos relacionados a transtornos neurológicos e psiquiátricos.
“Ao contrário da maioria das áreas médicas, a psiquiatria não tem um modelo claro das diferenças biológicas”, disse Deisseroth.
“Na cardiologia, por exemplo, podemos analisar a insuficiência cardíaca como uma falha na bomba que é o coração, quantificando seu desempenho.”
“No cérebro, não temos essa medida objetiva. Isso sempre foi um desafio na psiquiatria, mas a optogenética ajuda a determinar quais células estão superativas ou subativas, guiando os tratamentos de forma mais precisa.”
Há possibilidades de tratamentos?
“Ao identificar as células envolvidas, podemos testar medicamentos mais eficazes e reduzir as incertezas nos ensaios clínicos”, falou Deisseroth.
“Isso é muito promissor. Já há grandes estudos clínicos avançando para fases finais, focados em tratamentos baseados na optogenética para autismo e esquizofrenia, com resultados animadores.”
Quais seriam os benefícios para os pacientes?
“Por exemplo, no autismo, os tratamentos atuais para irritabilidade — comportamento agressivo e descontrole — são antipsicóticos fortes, que causam efeitos colaterais como ganho de peso e sedação, mas ainda são usados devido à falta de opções.”
“Agora, estão sendo testados medicamentos não antipsicóticos para essa condição, que são totalmente diferentes.”
Deisseroth também comentou sobre a doença de Parkinson.
“O Parkinson envolve a morte dos neurônios dopaminérgicos, que influenciam várias funções como movimento, motivação, vômito e lactação.”
“Os medicamentos atuais afetam todos esses sistemas, criando problemas. Com a optogenética, esperamos desenvolver tratamentos que atuem especificamente no movimento, principal sintoma da doença.”
Qual o impacto para a neurotecnologia?
“As interfaces cérebro-computador hoje usam principalmente eletricidade para captar e estimular a atividade cerebral.”
“Os métodos ópticos poderiam oferecer uma nova forma de comunicação, usando luz em vez de eletricidade. Porém, essa aplicação ainda está distante e precisará de mais desenvolvimento.”
Notícias
Anvisa autoriza novo remédio para tratar doença de Fabry
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento para o tratamento da doença de Fabry. O remédio Elfabrio, que é o nome comercial da alfapegunigalsidase, é indicado para adultos que necessitam de terapia de reposição enzimática (TRE) por um longo período.
Essa doença rara é genética e lisossômica, causada pela falta da enzima α-galactosidase A, o que provoca o acúmulo da substância globotriaosilceramida (Gb3) em vários órgãos e tecidos do corpo.
Entre os sintomas da doença de Fabry estão problemas renais, doenças cardíacas, distúrbios cerebrovasculares, neuropatia periférica, perda de sensibilidade, problemas auditivos, lesões características na pele chamadas angioqueratomas, e sintomas gastrointestinais como diarreia e dores abdominais.
Elfabrio age substituindo a enzima que falta no organismo, a alfagalactosidase, ajudando a quebrar essa substância acumulada e facilitando sua eliminação. Isso contribui para evitar o avanço dos danos cardíacos e da insuficiência renal. O medicamento é fornecido em frascos de 10 ml em forma de solução estéril para diluição e é administrado através de infusão intravenosa, conforme explicou a Anvisa.
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