Economia
Julho para saída de estrangeiro no Brasil; futuro ainda incerto
O mês de julho marcou uma pausa na sequência de dois meses consecutivos de saída significativa de capital estrangeiro da B3. A bolsa de valores registrou um ingresso de R$ 2,558 bilhões, elevando o saldo acumulado no ano para R$ 36,406 bilhões.
Esse valor representa um aumento de 81% em comparação ao mesmo período do ano passado. A previsão é de que novos aportes ocorram, porém o ritmo não será contínuo, devido às dúvidas relacionadas a fatores externos e internos, como o atual cenário eleitoral.
A entrada de recursos estrangeiros na bolsa resultou em uma valorização de 3,5% do Ibovespa no mês de julho, que foi o primeiro desempenho mensal positivo desde fevereiro. O EWZ, principal fundo com ativos brasileiros negociado em Nova York, teve alta de 6,23%.
O mercado nacional foi impulsionado pela reascensão das tensões no Oriente Médio, pela mudança global de investimentos, retirando recursos do setor de tecnologia, e pelo alívio nas curvas de juros. Os impactos da tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros foram mínimos, pois a lista de exceções considerou produtos importantes para as exportações do país.
O setor petrolífero na B3 foi o principal beneficiado, refletindo na valorização das ações da Petrobras (ON +17,4% e PN +14,9%) e da Prio (+16,7%).
“A expressiva valorização do petróleo contribuiu para a redução do risco Brasil, considerando a importância da commodity na pauta de exportação, e atraiu investimentos para ações de produtoras brasileiras, como a Petrobras”, comenta o CEO da Kosmos Capital Group (KCG), Marcelo Nantes.
Para o economista-chefe de Mercados Emergentes da Capital Economics, William Jackson, é possível que continue a haver entrada de capital estrangeiro no Brasil, visto que o país se beneficia, em termos líquidos, dos preços elevados da energia.
Além disso, a diversificação global dos portfólios tem favorecido mercados menos dependentes da cadeia da inteligência artificial, devido ao receio de uma bolha nesse segmento.
“Nesse processo de diversificação, o Brasil surgiu novamente como opção: apesar dos riscos relacionados a juros altos e incertezas fiscais, a bolsa brasileira está negociada a múltiplos ajustados e oferece exposição a setores pouco correlacionados com o tema de tecnologia”, destacam os analistas do Itaú BBA, Victor Natal e Mathias Venosa, em carta mensal a investidores.
No contexto interno, o mercado reagiu positivamente a notícias sobre a desaceleração da inflação, aumentando as expectativas de cortes na taxa Selic. Em 5 de julho, o Banco Central reduziu a taxa básica de 14,25% para 14%, com corte de 0,25 pontos percentuais.
“A desaceleração do IPCA-15 em julho reforçou a possibilidade de nova redução da Selic na reunião de agosto. Nossa equipe macroeconômica, por exemplo, passou a projetar uma taxa final do ciclo atual em 13,75%, contra expectativa anterior de 14% – mesmo uma pequena mudança, é um sinal positivo para ativos domésticos”, aponta o Itaú BBA.
Apesar do saldo positivo de capital estrangeiro em julho, não se espera repetir, neste ano, o forte volume registrado até abril, que foi de quase R$ 70 bilhões. Mesmo com a bolsa brasileira considerada barata, a cautela dos investidores estrangeiros continua predominando.
“Esse movimento resultou de uma realocação global para mercados emergentes e não necessariamente de uma melhoria estrutural do Brasil”, explica o head de alocação da InvestSmart XP, Daniel Nogueira. “A reversão foi impulsionada principalmente por fatores externos: a escalada do conflito entre Israel e Irã aumentou o risco do petróleo, elevando a inflação global e levando EUA e Europa a manter juros altos por mais tempo, tornando a renda fixa dos países desenvolvidos mais atrativa.”
O estrategista da S4 Consultoria, Bruno Takeo, aponta que ainda existe interesse dos investidores estrangeiros no Brasil, mas para que os aportes sejam consistentes, é preciso que algumas incertezas, como o conflito no Oriente Médio, diminuam. “A dúvida sobre o mercado de tecnologia nos EUA também tem impulsionado recursos para o Brasil”, acrescenta.
Segundo Takeo, gestores relatam que investidores estrangeiros estão interessados em aportar no país e estão “avaliando” o mercado. “Porém, aguardam um gatilho para realizar os investimentos de fato”, afirma.
Foco na política
As próximas eleições e a pauta fiscal começam a influenciar a decisão dos investidores estrangeiros. “Medidas de estímulo no período pré-eleitoral podem aumentar as preocupações com a situação fiscal”, observa Jackson, da Capital Economics.
Nantes, do KCG, explica que o déficit nas contas públicas tem ganhado importância nas decisões de investimento. Nos próximos meses, o cenário eleitoral deve influenciar o ritmo dos investimentos estrangeiros no Brasil, com os mercados avaliando o comprometimento dos candidatos com a disciplina fiscal no próximo mandato.
“De agora em diante, o fator tende a ser menos técnico e mais político, com o mercado ajustando posições conforme obtém sinais de compromisso com as contas públicas e estabilidade institucional”, acrescenta o estrategista da Empiricus Research, Matheus Spiess.
O cenário permanece incerto. “É bastante difícil prever o fluxo de capital até o final do ano. As tendências da inflação e, consequentemente, dos juros, não estão claras neste momento”, destaca Nogueira, da XP. “Além disso, o cenário inflacionário e do emprego nos EUA também é incerto, com múltiplas tensões geopolíticas simultâneas, o que pode causar aumento dos preços de produtos essenciais para a economia, como o petróleo, e levar a mudanças drásticas nas dinâmicas e relações globais a qualquer momento.”