Economia
Cabotagem Brasileira aposta em Biocombustíveis para Reduzir Emissões
O desafio para a cabotagem no Brasil aumentar a redução de gases que causam o efeito estufa tem crescido. Regras criadas pela Organização Marítima Internacional (IMO) para o final desta década vão aumentar os custos para navios que usam combustíveis fósseis. Isso fará com que as empresas busquem alternativas mais limpas, sem perder espaço para o transporte rodoviário.
Luiz Fernando Resano, que é diretor da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), falou sobre isso no evento Conecta Multimodal 2026, durante a feira Multimodal Nordeste 2026.
Ele destacou que, embora seja inevitável a mudança para energias limpas, é importante levar em conta o mercado brasileiro para que o frete não fique mais caro a ponto de as cargas serem transportadas por estradas. “O navio internacional compete com outro navio. Na cabotagem, a competição é com o transporte rodoviário. Se o transporte pelo mar ficar mais caro, a carga vai para a estrada. Ninguém quer pagar mais só porque o transporte é mais verde”, explicou.
O novo conjunto de regras em discussão pela IMO terá caráter obrigatório e incluirá multas para navios que tiverem alta emissão de gases, diferente das metas do Acordo de Paris, que são voluntárias. Navios que continuarem a usar combustíveis tradicionais poderão pagar até US$ 380 por tonelada de CO2 emitida, o que vai aumentar os custos e os preços dos fretes.
Biocombustíveis: Uma Oportunidade para o Brasil
Apesar do desafio, o Brasil tem uma chance no uso de biocombustíveis para a cabotagem. Resano afirmou que poucos países têm a capacidade do Brasil para produzir combustíveis renováveis em grande escala.
O etanol e o biodiesel, feitos da cana-de-açúcar, milho e soja, são exemplos promissores. Eles podem diminuir muito as emissões do transporte marítimo e até gerar créditos financeiros no novo sistema de regras, dependendo do resultado ambiental alcançado.
“O Brasil tem matéria-prima para produzir muito etanol e biodiesel. Isso pode ser uma grande vantagem para o país como fornecedor de combustível para navios. Na cabotagem, temos soluções que combinam com nossa realidade”, disse Resano.
Posição de Destaque do Brasil no Mercado
A Abac avalia que o Brasil tem vantagens que poucos países têm para atender as futuras regras ambientais da navegação. O país já produz bastante etanol e biodiesel e tem experiência no uso desses combustíveis.
Resano destacou que o biodiesel pode ser usado nos motores dos navios com poucas mudanças, e fabricantes já pesquisam como usar o etanol para propulsão naval. Ele ressalta que o desafio está também no reconhecimento internacional desses combustíveis como soluções sustentáveis.
“Já avançamos na certificação do etanol de milho e trabalhamos para obter o reconhecimento do etanol de cana. Se mantivermos as emissões em níveis baixos, poderemos evitar multas e até receber créditos”, afirmou.
Enquanto opções como amônia verde e hidrogênio ainda precisam de mais tecnologia e infraestrutura, o etanol e o biodiesel são alternativas mais próximas para o Brasil.
Incentivos e Políticas para Apoiar a Cabotagem
A Abac defende que a transição para energias limpas no transporte marítimo seja acompanhada de políticas públicas para manter a competitividade. O foco deve ser incentivar os embarcadores que escolherem o transporte aquaviário, que é mais eficiente e sustentável.
“Se vamos criar um mercado de carbono, é preciso dar créditos para quem escolhe a cabotagem, não para a empresa de navegação. Quem opta pelo modal mais eficiente deve ser beneficiado”, disse Resano.
Ele lembra que aumentar o uso da cabotagem traz benefícios além da redução das emissões, como diminuição de custos logísticos, menos acidentes nas estradas, menor uso de combustíveis fósseis, operações mais previsíveis e viagens rodoviárias menores, que são mais eficientes.
O transporte por navios responde por uma fatia pequena das emissões do setor de transportes, mostrando seu potencial para ajudar o país a cumprir metas climáticas.
Desafios Ainda Persistem
Apesar das oportunidades, a cabotagem enfrenta desafios. Um deles é o fim da isenção do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), que está previsto para janeiro de 2027. Se não for renovado, os custos de transporte subirão cerca de 8%.
Outro problema é a falta de profissionais qualificados na Marinha Mercante, com cerca de 340 vagas abertas para oficiais sem candidatos adequados. Para resolver isso, empresas associadas investem na formação de novos oficiais, custeando cerca de R$ 65 mil por aluno e contratando trainees durante a capacitação.
“Enquanto muitos veem apenas um mar, nós vemos um caminho promissor. A cabotagem pode ajudar a reduzir emissões, diminuir custos no Brasil e aumentar a eficiência logística, desde que a transição seja feita de forma equilibrada”, concluiu Resano.