Economia
EUA cortam cota de açúcar e Nordeste pode perder US$ 30 milhões
O governo dos Estados Unidos anunciou na última quarta-feira uma redução de 55.993 toneladas na cota brasileira para exportação de açúcar bruto com tarifa zero no ano fiscal de 2027, que terá início em 1º de outubro. Historicamente, o Brasil possuía uma cota de 155.990 toneladas, mas agora contará apenas com 100 mil toneladas, uma diminuição de 35,5%.
Essa medida deve causar um prejuízo estimado em US$ 30 milhões, afetando um setor que emprega cerca de 250 mil pessoas no Nordeste, região responsável por 100% das exportações brasileiras nessa categoria.
Os Estados Unidos mantiveram a cota total de importação de açúcar bruto de cana em 2027 em 1,117 milhão de toneladas. Deste total, 1,061 milhão de toneladas já tinha sido distribuída entre países exportadores em julho. A principal mudança para o novo ciclo foi a redução da cota destinada ao Brasil, enquanto os demais países fornecedores mantiveram volumes parecidos com os de 2026. Parte do volume não destinado ao Brasil foi encaminhado para outros países.
A República Dominicana recebeu 11.931 toneladas adicionais, chegando a uma cota de 189.343 toneladas. As Filipinas ganharam 9.151 toneladas a mais, totalizando 145.235 toneladas. O restante foi dividido entre outros 26 países.
Impacto e reação
Renato Cunha, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PE) e da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (Novabio), afirmou que a decisão desaponta as usinas do Nordeste.
Embora o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos já tivesse sinalizado em julho uma redução da cota para o Brasil, o setor esperava renegociar o volume para 2027. Cunha classificou o corte como uma “ruptura inesperada”, pois não decorre de questões tarifárias, mas da supressão de parte de uma cota homologada na Organização Mundial do Comércio (OMC).
O Brasil, desde 2014, participa do programa global da OMC que estabelece cotas de importação com tarifa zero, mecanismo iniciado nos anos 1960, quando o Nordeste começou a exportar açúcar aos Estados Unidos nesse formato. De acordo com uma lei brasileira de 1996, somente as regiões Norte e Nordeste podem aproveitar esses “mercados preferenciais” livres de tarifas — uma medida pensada para razões socioeconômicas e geração de empregos nessas regiões.
Quando se ultrapassa essa cota, a tarifa cobrada pelos EUA ultrapassa US$ 340 por tonelada, um valor considerado proibitivo por Cunha, funcionando como uma barreira para exportações adicionais.
Repercussões na cadeia produtiva
Cunha explica que o efeito da redução vai além das usinas, afetando produtores de cana e fornecedores ligados à cadeia produtiva, pois a diminuição da receita pressiona o fluxo de caixa das indústrias e, consequentemente, reduz o preço pago ao produtor.
O Nordeste deve produzir aproximadamente 3 milhões de toneladas de açúcar nesta safra e contava com maior acesso ao mercado americano. Ele destaca que a região depende mais da mão de obra que o Centro-Sul do país, o que aumenta o risco para cerca de 250 mil empregos diretos e indiretos ligados ao setor sucroenergético.
“Não vamos perder totalmente essa receita, pois buscaremos outros mercados, mas eles não pagarão o mesmo valor”, disse Cunha ao falar sobre as alternativas comerciais diante da redução da cota dos EUA.
Buscando soluções e negociações
O setor sucroalcooleiro do Nordeste agora tenta negociar a decisão com o governo brasileiro. “Tenho conversado com o Ministério da Indústria e Comércio (MDIC) para definir os próximos passos”, explicou.
Ainda, representantes do setor mantém contato com refinarias e importadores americanos. “Recebemos cartas desses importadores solicitando açúcar do Nordeste do Brasil”, afirmou Cunha.
Para ele, a discussão da cota de açúcar não deve estar vinculada às negociações relativas ao mercado de etanol. Os Estados Unidos têm interesse em ampliar sua participação no mercado brasileiro de etanol, mas o setor acredita que a importação do produto não é necessária para o Brasil.