Cultura
Dia do Compositor Brasileiro: conheça os autores das músicas que o Brasil canta
Todo mundo sabe cantar alguma música, mesmo que quase ninguém saiba quem a escreveu. Essa é uma das curiosidades da música popular: a voz se torna famosa, o refrão vira parte da memória coletiva, mas o nome de quem criou a canção muitas vezes fica esquecido nos créditos.
É justamente esse profissional que o Dia do Compositor Brasileiro homenageia. Celebrado em 7 de outubro, foi instituído em 1948 por iniciativa de Herivelto Martins, cantor e compositor marcante na música popular brasileira e um dos fundadores da União Brasileira de Compositores (UBC), que surgiu para promover maior valorização dos autores.
Michael Sullivan conhece bem essa realidade de quem está por trás da voz. Junto com Paulo Massadas, escreveu músicas que conquistaram o Brasil nas vozes de Tim Maia, Fagner, Alcione, Sandra Sá, Roupa Nova, Xuxa e muitos outros. Clássicos como “Me Dê Motivo”, “Deslizes”, “Estranha Loucura”, “Joga Fora”, “Retratos e Canções”, “Whisky a Go Go” e “Lua de Cristal” compõem um repertório que atravessou gerações.
Em várias delas, a ligação com o intérprete se tornou tão forte que o nome do compositor quase se perde da lembrança do público.
Exemplos são “Lua de Cristal”, feita para Xuxa, e “Me Dê Motivo”, imortalizada por Tim Maia. Para Sullivan, no entanto, a criação não termina quando a música encontra outra voz, mas começa uma nova fase.
“Fazer músicas é ser um instrumento vivo, é se conectar com a melodia, ser fiel à linguagem, sincero com o povo e leal às batalhas. […] Compositor é quem lê o tempo; devemos entender a música de forma global, escrevendo com inovação”, destaca Sullivan.
Versatilidade
Essa inquietação explica a trajetória de Sullivan longe de uma única fórmula. Ele continuou compondo para vários públicos e estilos, inclusive música infantil, e atualmente trabalha com novos parceiros como Erika Ender, Marcelo Adnet e Juliano Holanda.
Incentivo
Em 2024, essa atenção ao futuro da criação ganhou forma com o projeto Composição Plural, idealizado por ele em parceria com a UBC para democratizar o acesso à arte, apoiar novos talentos da música brasileira e fomentar a formação de compositores.
A iniciativa levou oficinas de composição gratuitas a centros culturais, aproximando novos autores de profissionais da música.
O projeto também reflete a preocupação com o legado que quer deixar para as próximas gerações.
“Tenho carregado comigo toda a música que existe em mim, equilibrando esse peso com sucesso. Ser simples é a harmonia perfeita entre minha música e o êxito, porque legado não é o que você entrega, mas o que deixa nas pessoas”, resume Sullivan.
Nem só inspiração
Enquanto Sullivan tem décadas de sucesso, Juliano Holanda representa uma geração que encontrou na parceria e circulação da música autoral formas diferentes de construir legado. Em Pernambuco, suas composições foram interpretadas por artistas como Zélia Duncan, Simone, Almério, Elba Ramalho, Gonzaga Leal e Ceumar.
Músicas como “Na Primeira Cadeira”, “Onde É Que Isso Vai Dar”, “Boca em Brasa”, “Do Avesso” e “Eu e Vocês” revelam que uma composição pode ganhar novos sentidos ao ser interpretada por outros cantores. Para Holanda, contudo, inspiração sozinha não sustenta o trabalho.
“Às vezes, uma composição é uma mistura de inspiração e técnica. Como qualquer ofício, ser compositor exige prática, atenção, atualização e dedicação”, afirma ele.
Essa visão inspirou a criação da Mostra Reverbo, em 2016, idealizada por Holanda e a produtora Mery Lemos, que reúne músicos e compositores da cena autoral de Pernambuco.
O projeto, que ajuda a fomentar uma nova geração de autores, parte da ideia de que uma obra pode crescer quando é vista por diferentes perspectivas.
“Essa geração representa o momento atual. É essencial conhecer o passado e projetar o futuro, mas a canção, por sua rapidez, é o meio ideal para discutir o presente. […] O autor é, acima de tudo, um observador. É possível ouvir uma música e sentir as memórias da infância ou compreender melhor a dor de outra pessoa ou cultura. Compositores são como fotógrafos do tempo”, destaca Holanda.