Cidades
Descubra a Língua Brasileira de Sinais
Uma conversa em Libras (Língua Brasileira de Sinais) não ocorre apenas através das mãos. O olhar, as expressões faciais, os movimentos da cabeça e do tronco, além da posição de um sinal no espaço, todos contribuem para a formação de uma frase. Para os usuários da língua, o ambiente ao redor é captado visualmente. Neste sábado, no Dia Nacional do Surdo, refletimos sobre como as pessoas surdas percebem os sentidos, a linguagem e a comunicação em uma sociedade predominantemente orientada pelo som.
A distinção vai além do instrumento usado para transmitir uma mensagem. Trata-se de uma maneira diferente de organizar a experiência. Ao invés de enxergar a surdez apenas como a falta de audição, estudiosos e membros da comunidade surda ressaltam como a percepção, a linguagem e as relações sociais se desenvolvem a partir de uma vivência visual.
Definição
A legislação brasileira reconhece a Libras como uma língua visual-motora, com uma estrutura gramatical própria, definindo a pessoa surda legalmente como alguém que entende e interage com o mundo através de experiências visuais e manifesta sua cultura principalmente por meio da Libras.
Ronice Müller de Quadros, linguista e especialista em Língua Brasileira de Sinais, explicou à Folha que a modalidade da língua influencia as áreas cerebrais ativadas no processamento da linguagem.
“As línguas de sinais ativam o hemisfério esquerdo do cérebro, nas regiões da linguagem, assim como as línguas faladas. Contudo, por processarem informações visualmente e corporalmente ligadas ao significado, também estimulam áreas do hemisfério direito que não são tão ativadas nas línguas faladas”, afirmou.
Visão como sentido central
Sem o recurso auditivo disponível, sinais que os ouvintes reconhecem pelo som precisam ser percebidos por outros meios. Para a especialista, a visão é fundamental nesse processo.
“Como a audição não está disponível, os surdos processam as informações predominantemente pela visão”, comentou. Na Libras, esse processamento envolve mais que as mãos; o corpo inteiro contribui para a expressão. “Os sinais envolvem face, tronco e mãos. É possível criar espaços e subespaços para indicar diferentes tempos ou momentos numa narrativa, situando referências dentro do espaço.”
Thiago Albuquerque, professor surdo e docente de Libras no Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco (CAA-UFPE), explicou que a Libras não é simplesmente a tradução do português feita com as mãos.
“A Libras é uma língua completa, assim como qualquer língua falada. Ela não é uma mera representação do português com sinais.” Além dos gestos, expressões faciais e corporais, movimentos, uso do espaço e a estrutura das frases são essenciais.
“A ordem dos sinais nem sempre segue a ordem das palavras do português. Por isso, é fundamental compreendê-la em sua própria estrutura, sem tentar ajustá-la à gramática do português”, enfatizou.