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Canetas para emagrecer causam perda súbita da visão?
Nos últimos anos, a semaglutida, um composto que imita o hormônio intestinal GLP-1 e auxilia no controle da glicose, além de aumentar a sensação de saciedade, e a tirzepatida, um composto que age como agonista dos receptores hormonais GLP-1 e GIP, têm transformado o tratamento para diabetes tipo 2 e obesidade mundialmente.
Popularmente conhecidas como “canetas para emagrecer”, esses medicamentos estão presentes em 33% dos lares brasileiros, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva divulgada em abril de 2026.
No entanto, usuários dessas canetas foram alertados esta semana pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que investiga 13 casos suspeitos de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA), doença rara que pode causar perda rápida, indolor e definitiva da visão, geralmente em apenas um dos olhos, em pessoas usando medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida.
O que é a NOIA-NA?
A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica é causada pela diminuição do fluxo sanguíneo no nervo óptico, podendo resultar em perda visual súbita e indolor.
Camila Ventura, oftalmologista especializada em retina e vítreo no Hospital de Olhos de Pernambuco (HOPE), explica que o nervo óptico transmite ao cérebro as informações captadas pela retina.
“A retina, no fundo do olho, captura as imagens como um filme, e essas informações são enviadas ao cérebro pelo nervo óptico”, esclarece. “Na NOIA não arterítica, o suprimento sanguíneo do nervo óptico é comprometido, causando isquemia. Essa condição grave pode levar à perda visual sem possibilidade de recuperação. O tratamento é limitado”, completa a especialista.
Atualmente, não existe tratamento eficaz para reverter a perda visual causada pela NOIA-NA. O manejo envolve controle dos fatores de risco para aterosclerose, como pressão alta e diabetes.
Além do risco do medicamento, há predisposições relacionadas a fatores anatômicos oculares e condições sistêmicas como diabetes, hipertensão, colesterol alto, apneia do sono e idade avançada.
Quantos casos estão sendo investigados no Brasil?
O levantamento da Anvisa, solicitado pelo g1, revelou 13 notificações de casos suspeitos envolvendo medicamentos com semaglutida e tirzepatida:
- Ozempic: 5 casos;
- Wegovy: 5 casos;
- Rybelsus: 2 casos;
- Mounjaro: 1 caso.
Desses, 12 estão relacionados à semaglutida e 1 à tirzepatida.
A Anvisa reforça que essas notificações são suspeitas de eventos adversos, não confirmados como casos de NOIA-NA.
“A presença do medicamento e do evento em uma notificação não comprova que o remédio causou a neuropatia ou a perda visual”, explica o órgão.
A confirmação depende do diagnóstico, relação temporal, condições clínicas e outras possíveis causas.
Semaglutida e Tirzepatida causam cegueira súbita?
Até o momento, não há prova definitiva de que esses medicamentos causem a doença. Contudo, um estudo de 2024 publicado na revista científica JAMA Ophthalmology apontou risco até quatro vezes maior de NOIA não arterítica em pacientes que usam essas medicações comparado a quem usa outros tratamentos para diabetes tipo 2 e obesidade.
Os pesquisadores destacam que são necessárias mais investigações para confirmar a causalidade entre a semaglutida e a neuropatia.
A Anvisa alertou em julho do ano passado sobre a possibilidade da NOIA-NA como evento adverso muito raro da semaglutida. Até então, o sistema VigiMed já registrava 52 suspeitas de distúrbios oculares vinculados.
O risco de perda permanente de visão foi incluído nas bulas do medicamento após avaliação do Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância (PRAC) da Agência Europeia de Medicamentos (EMA).
Casos em Pernambuco
A Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco informou que não há registros da doença associada ao uso dos medicamentos no estado.
Posição das farmacêuticas
A Novo Nordisk, fabricante da semaglutida, afirmou que prioriza a segurança do paciente, levando a sério eventuais relatos adversos e colaborando com órgãos de saúde.
A empresa destaca que a semaglutida tem um perfil de segurança robusto apoiado por diversos estudos com mais de 58 milhões de pacientes expostos.
Uma análise conjunta de ensaios clínicos envolvendo 83 mil pacientes mostrou poucos casos de NOIA-NA e nenhum aumento da incidência com o uso da semaglutida.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, também reforça sua prioridade pela segurança e mantém monitoramento constante junto às autoridades regulatórias.
O que fazer em caso de alteração visual?
A Anvisa orienta a buscar atendimento médico imediato diante de perda súbita ou rápida piora da visão. As farmacêuticas recomendam acompanhamento rigoroso durante o uso dessas medicações.
Camila Ventura reforça a importância do acompanhamento oftalmológico para pacientes usando essas canetas, pois elas podem agravar condições oculares como a retinopatia diabética.
Esses medicamentos devem ser usados somente com orientação médica, respeitando as indicações e acompanhamento profissional adequado.