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Ansiedade pelo futuro do planeta
A preocupação constante com os problemas ambientais pode se transformar em um transtorno que afeta o dia a dia de muitas pessoas. O medo persistente de desastres naturais, a sensação de impotência frente aos eventos climáticos extremos, e a aflição causada pelas mudanças no meio ambiente são fatores que podem prejudicar a saúde mental.
Especialistas explicam que esse sofrimento frequente, que interfere na rotina, é conhecido como ecoansiedade — um termo que descreve os efeitos emocionais causados pela crise climática e suas consequências.
Embora não seja um diagnóstico formal ou uma condição reconhecida no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a ecoansiedade pode provocar sintomas como angústia profunda, tristeza, irritabilidade, mudanças no padrão de sono, dificuldade para focar e ataques de ansiedade.
Há décadas os impactos emocionais das alterações ambientais são estudados; em 2017, a Associação Americana de Psicologia (APA) definiu a ecoansiedade como o “medo crônico relacionado a desastres ambientais”.
Jéssica Alcântara, designer e especialista em sustentabilidade, enfrentou a ecoansiedade após um evento climático severo em 2022, em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. A experiência de presenciar uma corrente de ar violenta que derrubou o telhado de sua casa causou grande impacto em sua saúde mental. Nos meses seguintes, a ansiedade aumentou na presença de previsões do tempo severas, culminando em uma crise que a levou a buscar acompanhamento psicológico.
Desde então, as mudanças climáticas passaram a influenciar suas escolhas, como onde morar para evitar riscos de desastres naturais e o tipo de cidade ideal para viver.
Uma pesquisa conjunta do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Universidade de Oxford e instituto GeoPoll, realizada em 2024, revelou que mais da metade dos participantes pensava frequentemente sobre problemas ambientais.
No Brasil, um levantamento do Instituto Cactus e AtlasIntel, divulgado em 2025, indicou que a maioria das pessoas já enfrentou alguma forma de evento climático extremo e quase metade reconhece que isso impactou sua saúde mental.
O professor William Berger, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que quem já passou por desastres ambientais pode sentir-se mais vulnerável, enquanto quem sofre de ansiedade ou fobias pode reagir de forma mais intensa. Ainda assim, a ecoansiedade pode afetar indivíduos sem experiências diretas com esses eventos, manifestando-se pelo medo antecipatório do perigo.
Diogo Feliciano, cientista político de São Paulo, apesar de não ter vivido desastres naturais, sente o peso da ecoansiedade e isso altera suas decisões, como evitar dirigir e preferir transporte público, além de optar por um consumo mais consciente.
Para ele, a incerteza quanto às condições futuras também influencia decisões pessoais profundas, como a escolha de adotar uma criança em vez de ter filhos biológicos, por preocupações com o futuro do planeta.
Diogo também relata sentimentos de impotência diante da dimensão das mudanças climáticas, mas mantém esperança, que o motiva a continuar atuando em prol do meio ambiente.
Laura Cristina de Toledo Quadros, vice-diretora do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sugere transformar a preocupação em ação, começando com atitudes individuais como a coleta seletiva e estendendo-se para ações comunitárias e pressão por políticas públicas.
Segundo Berger, estratégias para melhorar a percepção de controle e o cuidado pessoal são importantes, e a terapia cognitivo-comportamental pode ser útil para casos específicos. Preparação para emergências também ajuda a reduzir a sensação de desamparo.
No caso de Jéssica, o conhecimento e o apoio de um grupo que enfrenta a mesma ansiedade climática foram fundamentais para lidar com o medo e a incerteza.
Já Diogo enfatiza a importância de cuidar do sono para controlar pensamentos ansiosos relacionados ao clima.
Essas experiências mostram que, mesmo diante dos desafios impostos pela crise ambiental, é possível conviver com a ecoansiedade buscando equilíbrio, informação e ação.